domingo, 3 de outubro de 2010

Breves Frames da perda de Jim

Tinham uma casa de vidro  que desenharam propositadamente para uma vida a dois, a vida deles. Tinham dois cockers malhados, um macho e uma fêmea. Tinham rotinas que espelhavam uma vida de casal perfeita. Tinham paixão quando se olhavam mutuamente, e sorriam com tanta conivência .
 Não foi o telefonema que mudou a vida de George, não podia culpar aquele repetitivo  toque  estrepitoso  pela sua angústia. De repente um sentimento tenebroso invade-lhe a alma  ( que alma tem ele agora ? o seu corpo é uma massa de ar ofegante, sente). Perdeu o seu companheiro, o seu menino homem com quem vivera 16 anos.
A casa de vidro era agora baça . O vinil que ambos ouviam nas horas de leitura aninhados  um no outro já não tinha a mesma sonoridade, George  já não tinha  o sorriso de Jim que todas as manhãs findava com o seu despertar mal humorado.
Deseja-se-lhe a velha rotina, a velha música, o velho brio da casa de vidro.
Tão só George , com o auscultador do telefone verde, chora. Não  perdeu só o Jim naquele acidente (conseguia imaginá-lo de uma forma tão presencial) , perdeu-se a si.
Consegue sentir cada batida do seu músculo vital ( o de Jim já não bate mais), o suor inunda as suas mãos , o  estômago é um laço que lhe  serve de enfeite  fúnebre …pálido, pousa o auscultador.
O amor que sentira por aquele homem não sentirá mais. O corpo que o sol todas as manhãs aquecia ao passar a casa de vidro, naquela cama, não terá mais, as leituras aninhadas não o aconchegarão mais. Era tão fácil amá-lo, e desamá-lo quão difícil será ( nunca irá deixar de amar o seu homem, prometeram-se um ao outro)  Jim oh Jim - grita! exclama! desespera! foge! volta a si.
Cansado pela dor deixa Jim por segundos.
E os cães? O que aconteceu aos cães?


A minha criação do início do romance "A single man" de Tom Ford.

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