domingo, 4 de setembro de 2011

Ainda bem que apareceste

Sobem ao palco. Dois pares de pés descalços arrastam-se freneticamente  naquele soalho de madeira ajoelhado perante o impetuoso trapo de veludo  rasgado que se estende até ao alto, tão alto! Desenha-se no ar um trilho de pó esvoaçante. Os holofotes iluminam o seu andrógeno cabelo loiro. Ele adora tocar-lhe, percorre o seu rosto sem bússola, conhece-lhe cada Norte. Sente -lhe as costelas marcadas no vestido primaveril que lhe tapa a nudez de tez pálida. Empurra-a. Ela volta girando às gargalhadas. É demente toda aquela beleza.Segura-a. Juntos dançam uma valsa de beijos, abraços e tesão. Perdem-se dentro um do outro.

"Rapaz vamos fechar, chega por hoje !"  O piano não se fez ouvir mais.

"Já está afinado!"_ disse ele,  ecoando os seus passos pela sala vazio enquanto as pontas do velho trapo de veludo rasgado encontravam-se uma à outra num nostálgico e já conhecido "Fim".


sábado, 3 de setembro de 2011

Lírico

No meu amanhecer o sol descobre-se no meio de almofadas brancas e suaves que derivam num vasto azul da cama. Os pássaros  cantam sonetos de alegria e contemplam-se uns aos outros com um "Bom dia!".O frio abraça-se num aconchego. O calor transpira-se na agitação. O meu amanhecer é escrito em pedaços de papel esquecidos no bolso  e por uma caneta  meio gasta (apenas os rabiscos são tão  simples assim). Sem ti o meu amanhecer é uma prosa desprovida de imaginação. Aguardo-te. Juntos tornamo-lo numa Poesia.