Sobem ao palco. Dois pares de pés descalços arrastam-se freneticamente naquele soalho de madeira ajoelhado perante o impetuoso trapo de veludo rasgado que se estende até ao alto, tão alto! Desenha-se no ar um trilho de pó esvoaçante. Os holofotes iluminam o seu andrógeno cabelo loiro. Ele adora tocar-lhe, percorre o seu rosto sem bússola, conhece-lhe cada Norte. Sente -lhe as costelas marcadas no vestido primaveril que lhe tapa a nudez de tez pálida. Empurra-a. Ela volta girando às gargalhadas. É demente toda aquela beleza.Segura-a. Juntos dançam uma valsa de beijos, abraços e tesão. Perdem-se dentro um do outro.
"Rapaz vamos fechar, chega por hoje !" O piano não se fez ouvir mais.
"Já está afinado!"_ disse ele, ecoando os seus passos pela sala vazio enquanto as pontas do velho trapo de veludo rasgado encontravam-se uma à outra num nostálgico e já conhecido "Fim".

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